P&B

5 05UTC fevereiro 05UTC 2010 por raprioli

O problema dos meus textos é que eles sempre acabam ficando em preto e branco.

Surdo

18 18UTC janeiro 18UTC 2010 por raprioli
Às vezes ela desata a falar tão rápido que eu duvido que alguém entenda. Mas eu também nunca fui muito de prestar atenção nas coisas. Eu fico olhando enquando ela cospe aquele monte de palavras e fico acenando a cabeça como se tivesse acompanhando cada sílaba, mas na verdade só olho pros olhos dela. Eu nunca disse isso para ela, porque mulher é assim, quando tá escrito é bonitinho, mas se a gente fala que não ouve o que ela diz, é capaz dela arranjar um porrete só para fazer um estrago.
Ela fica lá, falando um monte de bobeira, e eu passeando entre a boca, os olhos, as bochechas rosadas. Linda! As vezes ela olha para mim. Aí eu aceno de novo com a cabeça. E ela adora.
Eu gosto dela quando ela é tagarela e também adoro quando tá quietinha, dormindo. O bom dessa hora é que eu não tenho que acenar com a cabeça, eu fico lá, só olhando, sem precisar fingir nada.

Nem que seja assim.

3 03UTC janeiro 03UTC 2010 por raprioli

Quero viver o gozo de ser odiado, e me vangloriar, quieto e por poucos segundos, do descuido do seu olhar ao esbarrar no meu. Quero sentir o ciúme ardente e ser completamente impotente por você não ser mais minha. Quero te desejar a ferro e fogo, quero te desejar acima de tudo, desejar apesar de tudo, além de tudo, além de todos. Chorar as lágrimas pelas palavras ditas e viver a insônia proveniente das não ditas.

E assim hei de te amar sozinho e rejeitado, porque eu te amo, e esse é o único jeito que inda posso te amar.

A pena por se ser único é ser só.

19 19UTC dezembro 19UTC 2009 por raprioli

As pessoas iguais acabam se encontrando, e por isso, é natural que os que são comuns se encontrem mais. Não é de difícil observação que qualquer um que tenha em si grande ou pequena diferença, seja na mesma media que se destingue dos demais, solitário. E um ser só há de galgar amor em qualquer canto, pois a paixão é vontade básica, como a fome. Mas como num quebra cabeça onde as peças não se encaixam, um casal que não se reflete em si não pode caminhar harmoniosamente, pois os passos se desencontrarão e os caminhos se tornarão cada vez mais distantes.

Por isso não quebre seus espelhos, nem feche seus olhos.

Como eu gosto

14 14UTC dezembro 14UTC 2009 por raprioli
Era estranho que uma menina tão jovem tivesse tamanho desgosto pela vida. Mas ela, que tanto amava as cores do sol, se desfazia em lágrimas, fumaça e frases suicidas conforme o breu da noite dominava os céus. Sentada ao pé de sua cama ela costumava se entreter com cigarros e nos intervalos dos suspiros esfumaçados, dar fortes goles de conhaque.
Nisso a escuridão da noite ia clareando e a caneta entre seus dedos bêbados escrevia, numa caligrafia quase que ilegível, as mais profundas frases de amor.
Depois de tanto borrar seus olhos maquiados e de maldizer, com profundo ciúme, o amor dos outros, ela encontrou um estrangeiro que não compreendia o seu horrível traçado e nem as suas difíceis brincadeiras com o idioma português, e a ama mesmo sem entender a sua maior beleza.

A gravidade

13 13UTC dezembro 13UTC 2009 por raprioli

Nos tempos os quais o chão some, ficamos divididos entre cair ou voar. Visto que o nada leva à queda, e que verdadeiramente ninguém voa, de que adianta bater braços? Aceita, e cai. Porque independe do que você faça nada vai mudar a realidade, não importa a velocidade com que você bata seus braços nem a imensidão de sua fé, você vai cair. E caia simplesmente, não maldiga a lei da gravidade nem inveje os passarinhos. Caia, que é a melhor e a única coisa que você pode fazer.

O sol, o mar e uns cabelos negros

25 25UTC novembro 25UTC 2009 por raprioli

O sol dourava o céu no final de uma tarde excessivamente quente de outubro. Era natural que fizesse tanto calor numa cidade litorânea tão próxima ao trópico de capricórnio.
Com os meus pés confortavelmente cravados sob a areia eu acompanha a luz do sol esvair ao encontrar o mar. E ela, externa a tudo isso, ao meu lado sobre uma canga rosa florida, se debruçava sobre as páginas do seu livro tentando aproveitar os últimos raios de luminosidade do dia. Sem racionalizar os meus pensamentos e minhas ações eu parei de olhar a beleza infinita do sol, para admirar a volúpia definida do seu corpo. A pele suada brilhava em tons de dourado refletindo a luz da tarde, cada gota ressaltava a maciez e delicadeza do seu corpo amarrado apenas em um pequeno biquíni. Os seus cabelos negros como a noite que estava por vir escondiam seu rosto e o assunto de seu livro, e neste momento eu percebi que nem sol, nem mar, nem o próprio Deus no auto de sua não existência, não poderiam ser mais perfeitos. Como se sentindo meu olhar ela move suavemente seu cabelo para de trás da orelha com a mão direita, com a mão esquerda fecha o livro sobre seu polegar que cumpre a função de marcar a página e finalmente vira seu rosto em minha direção me inundando num mundo de olhos.
- Você quer ir?
Extasiado com a simplicidade e beleza a qual o pôr do sol me possibilitava encher os olhos, eu me contive apenas respondendo negativamente à pergunta e desejando que o sol e a água continuassem para sempre apaixonados.

Formatura

13 13UTC novembro 13UTC 2009 por raprioli

Com pouca experiência e conhecimento, mas com a prepotência nas nuvens eu sou cuspido da universidade para os pés do mercado. Tenho ignorância suficiente para achar que posso mudar o mundo, mas sei que normalmente é o mundo que me nos muda. Tenho disposição para dar com a cara na parede e continuar procurando saídas dentro de uma sala sem saídas, mesmo que os grandes me chamem de burro, as portas e as janelas são as opções antigas, eu quero as saídas que ninguém vê. Não espero ser recebido de braços abertos pelo mercado, ou que me ofereçam prêmios na minha primeira semana de trabalho. Espero sim que meus resultados sejam tratados com o valor que tiverem, mesmo que isso seja tão difícil ou mais que os braços abertos ou os prêmios prematuros. Eu não escolho meu futuro por dinheiro, por disponibilidade de vagas, por quantidade de pernas bonitas por metros quadrados ou pelo tipo de seus profissionais.Traço meu caminho não sei porque, por uma linha que eu não conheço, para um destino que não sei qual. E eu vou correndo pelo desconhecido, sou um apaixonado sedento pelo meu futuro e enamorado com a minha profissão.

No dia dos meus anos.

3 03UTC novembro 03UTC 2009 por raprioli

Na maioria dos dias é natural que se envelheça apenas um dia, e pela sutileza da transformação a gente nem perceba. Mas em alguns dias passa o ano todo e o peso de todos os outros dias se concentra nesse, e a gente comemora a nostalgia do tempo vivido. Que tenho eu para comemorar nos dias que me passam anos? Eu que nada faço no pequeno dos meus dias que realmente tenha algum valor, o que posso eu comemorar? Nem pelo futuro adiante posso ter esperanças, pois desdizer a minha inutilidade é como fechar aos olhos ao sol para não existir mais sol, mas mesmo que eu torne meus horizontes negros em uma manhã clara, eu ainda poderei senti-lo, assim como sinto e tenho certeza da minha inutilidade. Passam o dia dos anos e passam os anos pelos dias e eu permaneço.

Monotonia de si mesmo

23 23UTC outubro 23UTC 2009 por raprioli

Eu tenho a frágil certeza de que a gente só se apaixona por repulsa a nós mesmos. Ninguém é tão egoísta de si a ponto de poder passar uma vida sozinho. Nós somos chatos, enfadonhos e enjoativos, e um relacionamento é a simples tentativa de amenizar a existência de outro, amenizando a sua própria. Viver a pensar o amado é esquecer de si mesmo. Amor é intervalo. O mutualismo descrito na paixão é um suicídio sutil, controlado e não admitido.