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Respostas

15 de maio de 2012

Se me perguntares por que meus textos são inconstantes, incongruentes e desritimados, dizei-vos, sem dor nem peso, que a minha vida segue numa melodia que nem eu entendo e que meu coração bate desesperado.

E se me perguntares de novo por que meu amor é um, mas o interesse tantos, dizei-vos, de novo, sem dor nem peso, que o sangue que me cora a face é dela, mas os olhos que me corrompem a mente são do mundo.

Mas se mesmo ao som dessas respostas ainda sobrar dúvida, e ao fim do diálogo quiseres saber algo mais, dizei-vos, sem dor nem peso, que sou um homem a mercê do mundo e escravo dos meus ideais.

Gardenia

15 de maio de 2012

Hoje que sustenta belo sorriso e olhos jovens tens a sagacidade ignorante que a falta de experiência te permite e o corpo de formatos firmes que o pouco tempo ainda te concede. Faz desta virtude o seu único ponto, como uma rosa que estende grandes pétalas de vermelho berrante, mas ao se repousar o olfato sobre esta se percebe a nulidade do cheiro, e ao se recair o tato de uma mão delicada se observa a falsidade do plástico. És bela, no entanto não cheira. 

O que é a felicidade?

2 de maio de 2012

Uma cama confortável com um teto forte num quarto quente, talvez um amor real e forte ou a idolatria do querer platônico, talvez o dinheiro e a ventura e desventura dele. Talvez as incertas viagens ou o lar comum e seguro. Talvez um rock, um fado, um teatro. Talvez o mal que me queira, talvez a dor, a cerveja, a cerveja, a cerveja e a ressaca. Talvez enfim, tudo isso, ou se a sorte permitir, talvez nada.

Eu, verruga.

16 de fevereiro de 2012

Tenho uma verruga debaixo do meu nariz. Com certo desconforto a levo sempre comigo. Sempre a frente, sempre primeira. Se não houvesse a verruga, talvez se não houvesse a verruga eu seria mais bonito e mais agradável aos olhos das pessoas que me olham, talvez por ser mais agradável me olhassem mais e por ser mais olhado eu seria mais bonito. Mas, se a trago debaixo do meu nariz suposições são apenas suposições e a verruga é a verruga. E entre o que poderia ser ou o que talvez fosse, eu sou assim, simples verruga.

Tudo igual

16 de fevereiro de 2012

As vezes a sociedade me olha, semi ri das minhas manias e diz para eu mudar. Eu digo o mesmo para ela.

Do que eu não vivi

26 de outubro de 2011

Há ao meu redor essa pretensiosa ingenuidade, são meus iguais, meus iguais que me olham e me dizem, mas não me vêem e não me escutam. Não existem erros que sejam seus, se algo falha, é pelas mãos anteriores ou posteriores de outros, nunca as deles, suas mãos mesmo que humanas não podem tremer nem hesitar, não há o que não saibam, o que está além é impossível. E eu, que me tenho receoso do futuro como se entrasse aos centímetros em uma piscina gelada, e cada passo é amargamente sentido e vagarosamente esquecido para o próximo, eu que sinto cada pelo se arrepiar de medo ou frio quando o futuro se assanha aos poucos sobre mim, como posso eu ter certeza de alguma coisa? Como posso mergulhar sem hesitação no futuro, como posso escolher meus caminhos de olhos fechados e firmemente dar minha mão à alguém? Não, eu ainda nem sei o que é possível.

Manso

30 de setembro de 2011

As vezes quando a noite amansa o mundo, e do quadrado do meu quarto sem trancas fecho as portas e as janelas, e a escuridão e o silêncio fazem tudo desaparecer, eu penso um pouco antes de cair no sono, e só eu existo neste momento,  e só ela existe nesse momento.

Falo por mim

28 de março de 2011

Cansei de me apaixonar e penoso por ter te amado deito para o peito e dou as costas para a sorte. Não vou tomar mais seus desejos pelos meus desejos e querer, mesmo que descrente o que não é meu. Sou esse que sobrou, vazio de amor e cheio de vontade, o outro que de amores morria, morreu.

Te amei como se a minha verdade estivesse impregnada nas suas belas coxas. Me fiz só pela metade para te ver brilhar com minha beleza. E ainda mesmo que de ti sedento me afastei do poço cada vez mas fundo. Sai e vi que minha tristeza era tão pequena perto do meu mundo.

Agora que enfim não tenho mágoa nem tampouco companhia, acabo de me acabar no leito do amor dos outros. Hoje eu sou o par da alegria.

Colcha nova

17 de março de 2011

Nas costas alvas de serena beleza, vive em boa parte a minha porção nela. Bem no meio, que pega do inicio do pescoço até quase o começo da curva das nádegas. Eis que ali eu existo. Essa parte, privada dos olhos do mundo e dos olhos da dona é minha, pois só eu a conheço. É como se o vale da pele nas vértebras me ninasse, e eu pudesse me esconder nela e em mim mesmo, e o mundo inteiro se esquecesse de mim por um instante e eu pudesse deixar de ser eu e dormir uma noite para minha existência. Suas costas são o meu segredo, meu esconderijo, meu leito de morte.

1 de março de 2011

Desde sempre eu tenho esse inconfortável desejo de me encaixar em alguma coisa, desejo esse que por natural e sutil acredito que todo mundo tenha. Mas ao mesmo tempo não gosto da limitação de estar encaixado em alguma coisa, como uma barreira que me colocam e eu só possa migrar de uma casa para outra como coisa definida, e não possa ficar num campo aberto para escolher qualquer lugar para ir sem me serem atribuídas novas funções ou todo um novo conceito que as pessoas fazem de mim. Eu sou gente, gostaria que isso por si só já bastasse, mas não. Eu preciso ter opinião política, centro, direita ou esquerda, eu tenho que ter uma base concreta e argumentada que defenda essas opiniões que outras pessoas fizeram, mas não posso, de maneira nenhuma, me contradizer unindo as três num só pensamento, ou ir contra todas elas. Tenho que ter conhecimento tendencioso sobre tudo, se eu gostar de Heavy Metal e MPB é inaceitável também que eu goste de axé e forró, se eu ler Machado de Assis não posso gostar de reality shows e um entendedor de cinema que analisa Fellini e Kurosawa nem perde seu tempo com comédias românticas hollywoodianas. Porque as pessoas insistem em classificar como ateu, católico, evangélico, judeu? Eu não posso não ter opinião sobre religião? E não me importar com isso? E simplesmente acreditar no que eu quero acreditar? Por que as pessoas insistem em se encaixar em grupos dependendo do sexo das pessoas que elas estão apaixonada, ou fingem estar para se encaixar, heterossexuais, homossexuais, bissexuais, as pessoas não podem estar simplesmente apaixonadas, e ponto?

Sei lá, as pessoas dizem para pensar fora da caixa, mas cada vez mais se afundam em caixas divertidas, coloridas e seguem-se nesse padrão mudando juntas de caixa para caixa. E toda caixa é uma novidade, como uma visão de mundo completamente excitante e alternativa.
Eu não quero pensar fora da caixa, eu quero é viver fora dela.

 

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