Desde sempre eu tenho esse inconfortável desejo de me encaixar em alguma coisa, desejo esse que por natural e sutil acredito que todo mundo tenha. Mas ao mesmo tempo não gosto da limitação de estar encaixado em alguma coisa, como uma barreira que me colocam e eu só possa migrar de uma casa para outra como coisa definida, e não possa ficar num campo aberto para escolher qualquer lugar para ir sem me serem atribuídas novas funções ou todo um novo conceito que as pessoas fazem de mim. Eu sou gente, gostaria que isso por si só já bastasse, mas não. Eu preciso ter opinião política, centro, direita ou esquerda, eu tenho que ter uma base concreta e argumentada que defenda essas opiniões que outras pessoas fizeram, mas não posso, de maneira nenhuma, me contradizer unindo as três num só pensamento, ou ir contra todas elas. Tenho que ter conhecimento tendencioso sobre tudo, se eu gostar de Heavy Metal e MPB é inaceitável também que eu goste de axé e forró, se eu ler Machado de Assis não posso gostar de reality shows e um entendedor de cinema que analisa Fellini e Kurosawa nem perde seu tempo com comédias românticas hollywoodianas. Porque as pessoas insistem em classificar como ateu, católico, evangélico, judeu? Eu não posso não ter opinião sobre religião? E não me importar com isso? E simplesmente acreditar no que eu quero acreditar? Por que as pessoas insistem em se encaixar em grupos dependendo do sexo das pessoas que elas estão apaixonada, ou fingem estar para se encaixar, heterossexuais, homossexuais, bissexuais, as pessoas não podem estar simplesmente apaixonadas, e ponto?
Sei lá, as pessoas dizem para pensar fora da caixa, mas cada vez mais se afundam em caixas divertidas, coloridas e seguem-se nesse padrão mudando juntas de caixa para caixa. E toda caixa é uma novidade, como uma visão de mundo completamente excitante e alternativa.
Eu não quero pensar fora da caixa, eu quero é viver fora dela.